A dor menstrual é muito comum, mas não devemos considerá-la normal quando ela afeta o dia a dia, e em certas circunstâncias, se for intensa ou incapacitante, pode ser causada por alguma doença

30 set 2026 - 08h05

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- Por: Victoria Mazoteras Pardo, Profesora Titular de Universidad, Universidad de Castilla-La Mancha / Licenciado de The Conversation

Resumo

Embora atinja mais de 70% das mulheres, a dor menstrual não deve ser normalizada quando limita a rotina diária. Causada por contrações uterinas via prostaglandinas na dismenorreia primária, a dor também pode indicar condições subjacentes como endometriose, adenomiose ou miomas. O impacto funcional, dores progressivas ou sintomas atípicos exigem investigação médica, evitando que a aceitação do sofrimento atrase diagnósticos e tratamentos essenciais por anos.

Normalização da dor pode contribuir para atrasar a busca por ajuda: é recomendável solicitar uma avaliação médica se a dor for intensa ou incapacitante, piorar progressivamente ou persistir apesar do tratamento habitual. DexonDee/Shutterstock

Foto: The Conversation

Ibuprofeno na bolsa e uma bolsa de água quente para tentar aliviar uma dor que, às vezes, obriga a cancelar planos, faltar às aulas ou enfrentar um dia de trabalho tentando disfarçar o mal-estar. Para muitas mulheres, esse cenário se repete a cada mês e é aceito como uma parte inevitável da menstruação.

A dor menstrual, ou dismenorreia, é muito comum. Uma revisão recente, que incluiu 336 pesquisas de 70 países, estimou que ela afeta 71,3% das mulheres, embora os resultados tenham variado muito entre os estudos.

O fato de algo ser frequente não significa, no entanto, que devamos normalizá-lo, especialmente quando isso afeta a vida cotidiana.

Por que a menstruação pode doer?

Durante a menstruação, o útero se contrai para facilitar a expulsão do endométrio, o tecido que reveste seu interior e que se desprende quando não ocorre uma gravidez.

Nesse processo, intervêm substâncias semelhantes a hormônios chamadas prostaglandinas. Seu aumento favorece contrações uterinas mais intensas, que podem restringir temporariamente o fluxo sanguíneo e ativar mecanismos relacionados à dor.

Isso explica boa parte da dismenorreia primária, a dor menstrual que surge sem que haja uma doença pélvica identificável que a justifique. Geralmente começa na adolescência e se manifesta pouco antes ou no início da menstruação. Além do desconforto na parte inferior do abdômen, pode ser acompanhada de náuseas, diarreia, dor de cabeça ou tontura.

Qual nível de dor considerado "normal"?
Não existe um limite universal definido apenas por uma pontuação em uma escala. A intensidade importa, mas também o que essa dor nos impede de fazer. Um desconforto suportável que permite manter as atividades habituais não tem o mesmo significado que um sofrimento que obriga a faltar às aulas ou ao trabalho, impede a prática de exercícios, perturba o sono ou leva ao cancelamento repetido de atividades.
Seu impacto está bem documentado. Uma meta-análise constatou que aproximadamente uma em cada cinco mulheres faltava às aulas no colégio ou na faculdade devido à dismenorreia e que cerca de quatro em cada dez relatavam pior concentração ou desempenho acadêmico.
Quando a dor pode ser um sinal de algo mais
Mas nem toda dor menstrual é dismenorreia primária. Estamos diante de uma dismenorreia secundária quando existe uma causa subjacente.
É recomendável solicitar uma avaliação médica se a dor for intensa ou incapacitante, piorar progressivamente ou persistir apesar do tratamento habitual. Também quando surge um padrão diferente do anterior ou quando é acompanhada por outros sintomas, como dor pélvica fora do período menstrual, dor durante as relações sexuais, sangramento abundante ou irregular, desconforto ao evacuar ou urinar relacionado ao ciclo ou dificuldades para engravidar.
Entre as possíveis causas estão a endometriose (presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero), a adenomiose (presença de tecido endometrial na parede muscular do útero) ou os miomas uterinos. Isso não significa que uma mulher com menstruações dolorosas tenha necessariamente alguma dessas doenças, mas sim que determinados sintomas e padrões de dor justificam investigar o que pode estar por trás disso.
A endometriose é um dos exemplos mais comuns e conhecidos. O guia da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia recomenda que os profissionais considerem esse diagnóstico diante de sintomas como dor menstrual, dor profunda durante as relações sexuais, desconforto ao urinar ou evacuar, fadiga e infertilidade, entre outros.
Essas manifestações podem orientar a avaliação, mas, por si sós, não permitem estabelecer o diagnóstico. Para avançar no diagnóstico, combina-se a história clínica e o exame físico com técnicas de imagem, principalmente ultrassom e, em determinados casos, ressonância magnética. A laparoscopia pode ser indicada quando os exames de imagem são negativos e a suspeita persiste, ou se o tratamento empírico não for adequado ou eficaz.
O problema de nos acostumarmos à dor
A normalização da dor pode contribuir para atrasar a busca por ajuda. Na endometriose, além disso, o atraso no diagnóstico continua sendo um problema. Uma revisão de 17 estudos constatou atrasos no diagnóstico de 0,3 a 12 anos, com diferenças significativas dependendo de como esse intervalo era definido, do país e das características das pacientes.
Esse atraso não depende apenas de quem apresenta os sintomas. A própria revisão aponta dificuldades relacionadas ao reconhecimento da doença pelos profissionais e à necessidade de aprimorar as estratégias diagnósticas.
A mensagem, portanto, não deveria ser que qualquer incômodo menstrual seja patológico, nem que toda menstruação dolorosa esconda uma doença, pois isso significaria medicalizar um processo fisiológico. Mas também não deveríamos aceitar como inevitável uma dor que limita repetidamente a vida cotidiana.
Se, a cada mês, a menstruação obriga a reorganizar os estudos, o trabalho, o descanso, a prática de esportes ou a vida social em função da dor, talvez a pergunta já não seja quanto podemos suportar, mas por que isso está acontecendo.
The Conversation
Foto: The Conversation
Victoria Mazoteras Pardo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
- Por: Victoria Mazoteras Pardo, Profesora Titular de Universidad, Universidad de Castilla-La Mancha / Licenciado de The Conversation
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