Um tênis Gucci. Mais de mil dólares. Design assinado por um dos estilistas mais influentes da moda contemporânea. Até aqui, nada surpreendente no universo do luxo.Mas basta olhar a etiqueta para encontrar o detalhe que transformou o novo lançamento da maison em assunto: Made in China.Sim. A Gucci, uma das maiores representantes do luxo italiano, colocou no mercado novos modelos de sneakers fabricados na China. E a questão talvez nem seja onde eles são produzidos. A questão é: isso muda alguma coisa para quem está disposto a pagar mais de US$ 1 mil por eles?O protagonista dessa história é o Gucci Drip, primeiro sneaker desenvolvido pelo estilista Demna para a marca. Futurista, volumoso e sem cadarços, ele mistura referências dos tênis de basquete com uma construção slip-on.E vem acompanhado de um preço que não deixa dúvidas sobre o território em que pretende competir. No site americano da Gucci, uma versão em canvas com o tradicional monograma GG aparece por US$ 1.150, algo em torno de R$ 6 mil em conversão direta, sem considerar impostos e eventuais custos de uma compra internacional.Há outras versões próximas da faixa dos US$ 1 mil e modelos vendidos na Europa na casa dos € 800. Ou seja: não estamos diante de uma linha mais barata criada para outro mercado. O preço continua sendo Gucci. A etiqueta de origem é que mudou.Made in China. E daí? Talvez essa seja a parte mais interessante da história. Porque associar automaticamente “Made in China” a baixa qualidade seria ignorar a transformação industrial das últimas décadas.A China fabrica hoje produtos de altíssima complexidade e dispõe de uma cadeia produtiva capaz de atender algumas das maiores empresas do mundo. A própria Gucci diz que a escolha não aconteceu simplesmente por acaso.Segundo a maison, o parceiro chinês selecionado possuía o know-how tecnológico e as capacidades mais adequadas para atingir os padrões de desempenho e qualidade buscados para o produto.A empresa também afirma que a Itália continuará no centro de sua identidade e de seu modelo de fabricação e que não existem planos de transferir amplamente sua produção para fora do país. Então, talvez o problema nunca tenha sido a qualidade. Talvez seja a expectativa.No luxo, uma etiqueta nunca foi apenas uma etiqueta. Quando alguém compra uma bolsa, um sapato ou um vestido de uma grande maison italiana, leva junto algo que não aparece na lista de materiais.Florença.Milão.Oficinas.Artesãos.Tradição.Décadas, às vezes séculos, de história. O Made in Italy deixou de ser apenas uma indicação de procedência e virou parte do próprio produto. É quase um ingrediente invisível. E ingredientes invisíveis também ajudam a justificar preços visíveis e bastante altos.Por isso, a pergunta que o novo Gucci Drip provoca é tão interessante. Se o design continua sendo Gucci, a qualidade atende aos padrões Gucci, o produto é vendido dentro de uma boutique Gucci e custa como Gucci…Faça um teste: imagine dois pares exatamente iguais sobre uma mesa.Mesmo modelo.Mesmo material.Mesmo acabamento.Mesmo logotipo.Mesmo preço: US$ 1.150.Você vira o primeiro:Made in Italy.Vira o segundo:Made in China.Qual escolheria?E, mais importante:Pagaria exatamente o mesmo pelos dois?A resposta talvez diga muito mais sobre o mercado de luxo do que sobre a capacidade industrial de qualquer país. Porque luxo é produto, claro. Mas também é percepção.O Drip não é o único calçado da nova fase da Gucci com origem chinesa. Outro modelo slip-on de couro também aparece como Made in China.Segundo a Reuters, entre os demais calçados que informavam o país de fabricação no site da Gucci, os outros eram produzidos na Itália. A maison lembra ainda que recorrer a especialistas estrangeiros não é exatamente uma novidade: fornecedores da Suíça e do Japão já foram utilizados em categorias como relógios e óculos.Mas existe uma diferença interessante. Um relógio “Swiss Made” carrega imediatamente uma aura de prestígio. Um produto japonês pode remeter à tecnologia e à precisão. A expressão “Made in Italy” tornou-se praticamente sinônimo de moda sofisticada.Talvez seja justamente aí que esteja uma das apostas mais interessantes desse lançamento. O momento da Gucci torna tudo ainda mais relevante. A mudança acontece enquanto a maison enfrenta um período delicado.Segundo a Reuters, as vendas da Gucci caíram pela metade nos últimos três anos, pressionando os resultados da Kering, grupo controlador da marca, e levando ao fechamento de dezenas de lojas.Ao mesmo tempo, existe uma batalha importante acontecendo dentro do mercado de luxo: reconquistar o consumidor aspiracional.É aquele cliente que deseja uma grande maison, mas que olha o preço.Que escolhe.Que compara.Que talvez economize para comprar uma peça.E que, justamente por isso, pode fazer a pergunta mais desconfortável de todas: vale quanto custa?Talvez o Gucci Drip seja um experimento involuntário perfeito para responder a essa pergunta.Durante décadas, o luxo construiu seu valor sobre pilares bastante claros: qualidade, raridade, tradição, artesanato e procedência. Mas alguma coisa mudou.Hoje, um produto de luxo também vale pelo design, pela relevância cultural, pela campanha, pela celebridade que o usa, pela experiência da boutique e, principalmente, pelo poder do nome estampado nele. E é aí que aquele pequeno “Made in China” ganha uma dimensão enorme.Se um sneaker de US$ 1.150 fabricado na China provocar exatamente o mesmo desejo que um modelo feito na Itália, a Gucci terá demonstrado algo poderoso:Nome se tornou maior do que a origem.Mas, se o consumidor olhar para a etiqueta e começar a questionar o preço, teremos descoberto outra coisa. Que, mesmo numa indústria movida pelo desejo, a procedência ainda tem preço.No fim, talvez a pergunta nem seja se um produto fabricado na China pode ser luxo. Claro que pode!A pergunta é outra:Quanto do que pagamos está no produto, e quanto está na história que acreditamos estar comprando? Porque uma etiqueta pode dizer onde um tênis foi feito. Mas é outra etiqueta, é aquela que diz Gucci, que determina quanto estamos dispostos a pagar por ele.Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp














