Como esperado, haverá segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial, mas as urnas já deram um recado claríssimo no primeiro turno: com Flávio na frente de Lula, e com vitórias expressivas de partidos da oposição ao presidente – sobretudo o PL, partido dos Bolsonaros – na disputa pelo Senado e pelos governos estaduais, os brasileiros deixaram evidente que estão cada vez mais cansados do lulopetismo. Já se pode dizer que o eleitorado deseja mudanças.

O que se espera de Flávio e de Lula, agora, é que se disponham a debater suas ideias para que o eleitor possa saber qual dos dois é mais capaz de fazer essas mudanças. A campanha do primeiro turno, entretanto, não autoriza otimismo.

Ao longo das últimas semanas, o País assistiu a uma sucessão de ataques, insinuações e acusações recíprocas entre as campanhas de Lula e Flávio. Quase nada se ouviu sobre o que cada um deles pretende fazer a partir de janeiro. Ambos apostaram mais no medo de uma eventual vitória do adversário do que na confiança em suas próprias propostas, como se bastasse ao vitorioso ser menos detestado do que o derrotado para se qualificar como bom governante. O resultado é um eleitorado que foi às urnas mais por dever do que por esperança, e que decerto optou pelo que considerou o mal menor.

Lamentar a indigência do debate, contudo, não basta. O País é este. E, desde agora, os candidatos a governá-lo são Lula e Flávio Bolsonaro. É com um deles que a sociedade terá de lidar nos próximos quatro anos. Diante disso, o pior que o eleitor pode fazer por si mesmo e pelo Brasil é se entregar ao desalento, à indiferença ou à raiva. Sua decisão daqui a três semanas pesará muito no futuro. O próximo presidente da República terá pouca margem de erro para tratar de questões dificílimas de resolver.

As contas públicas estão em frangalhos. O crime organizado provoca medo nas ruas e avança sobre a economia formal, a política e até as instituições de Estado. A preservação do meio ambiente, ativo inestimável do Brasil, terá de ser conciliada com a exploração de petróleo e minerais raros. O Brasil precisa definir seu lugar em um mundo em convulsão após o colapso da ordem global do pós-guerra, notadamente marcado pela disputa geopolítica entre os Estados Unidos e a China, seus maiores parceiros comerciais. Como se nada disso bastasse, persistem os problemas domésticos nas áreas de saúde, educação e infraestrutura que, há décadas, frustram o potencial de desenvolvimento do Brasil.
Nenhum desses desafios é trivial. Por isso, os dois candidatos têm a obrigação de comparecer a todos os debates, entrevistas e sabatinas para dizer à Nação, com clareza e objetividade, o que pretendem fazer para resolvê-los. Fugir do debate, sob qualquer pretexto, ou recorrer a promessas vagas e ataques pessoais é não só um desrespeito ao eleitor, como um atentado contra um Brasil mais próspero para todos os seus cidadãos, tanto das atuais quanto das futuras gerações. Ademais, a sociedade merece saber como Lula e Flávio pretendem financiar suas políticas públicas. Não há futuro que não comece pela revalorização da responsabilidade fiscal, um princípio elementar da gestão pública que passou a ser tratado como xingamento.
Há ainda uma responsabilidade moral do futuro presidente perante a Nação. Quem vencer a eleição governará um país cindido, vale dizer, será o líder político também de milhões de cidadãos que não o escolheram para desempenhar esse papel. Não se superam desafios daquela envergadura sem a união do País em torno de objetivos comuns. O tom adotado por ambas as campanhas de agora até o dia 25 de outubro dirá muito sobre a disposição de Lula e de Flávio para curar as feridas abertas por uma disputa tão acirrada.
O segundo turno abre uma nova oportunidade para a qualificação do debate sobre os rumos do País. Os candidatos devem aproveitá-la para, enfim, falar de futuro. Se os problemas do Brasil são enormes, grandíssima também é a disposição de seu povo para resolvê-los – desde que bem liderado, como registra a História.

![[OPINIÃO] Pare de perguntar onde o Cuidado Universal de Saúde (UHC) encontrará o dinheiro. Construa a economia que possa pagar por isso.](https://eixoinfra.com/media/2026/10/68f2bfe683230ff615821b9f.png)
