Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

De Machado de Assis a Itamar Vieira: o que faz a literatura brasileira ser vendida para o exterior?
De Machado de Assis a Itamar Vieira: o que faz a literatura brasileira ser vendida para o exterior? · Imagem: Source: www.estadao.com.br

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Um romance brasileiro pode despertar o interesse de uma editora francesa, ganhar uma tradução para o italiano e, anos depois, encontrar um editor disposto a apresentá-lo em árabe. Entre uma etapa e outra, porém, há negociações, custos de tradução e uma pergunta que nem a assinatura do contrato resolve: como fazer aquela história chegar aos leitores?

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Com a abertura, nesta quarta, 7, da Feira do Livro de Frankfurt – a mais importante relacionada ao mercado editorial do mundo -, vale resgatar um momento importante, de mais de uma década atrás, para ajudar a entender esse percurso. Em 2013, a participação do Brasil como país convidado de honra colocou a produção literária nacional em evidência e alimentou a expectativa de uma presença mais ampla nas estantes estrangeiras. Treze anos depois, o que ficou daquele impulso?

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Pavilhão do Brasil, país homenageado pela Feira do Livro de Frankfurt em 2013 Foto: Maria Fernanda Rodrigues/Estadão

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Os dados mais recentes da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) - instituição responsável por preservar e divulgar o patrimônio bibliográfico brasileiro, mostram uma recuperação dos apoios à tradução e à publicação no exterior, ainda abaixo do pico registrado no ano da homenagem. Ao mesmo tempo, editoras ampliam seus negócios internacionais e autores encontram novos destinos para suas obras. O avanço, contudo, não significa que a atenção despertada em Frankfurt tenha se mantido na mesma intensidade.

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“O boom de interesse que aconteceu naquela época nunca mais se repetiu”, comenta Anna Luiza Cardoso, da agência LVB & Co., fundada por Luciana Villas Boas (ex-Record) em 2012. No entanto, ela identifica uma nova alta de interesse, associada à valorização da cultura brasileira e aos sucessos internacionais do cinema nacional, mas - de novo - ainda distante da movimentação de 2012 e 2013.

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Do pico de 2013 à recuperação dos apoios

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Os registros do Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, da FBN, ajudam a dimensionar aquele momento. Um levantamento do Estadão nas planilhas da instituição encontrou 206 apoios com status de concedidos em 2013, que somavam US$ 691,7 mil. Foram 128 no ano anterior.

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Cartaz da Feira do Livro de Frankfurt, que teve o Brasil como convidado de honra Foto: Feira do Livro de Frankfurt/Divulação

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Em 2014, o número caiu para 151; em 2015, para 106. A redução prosseguiu, com oscilações, nos anos seguintes. Em 2019, foram 53 apoios e, em 2022, 48.

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A recuperação começa a aparecer em 2023, com 122, seguida de 112 em 2024 e 133 em 2025 - o maior total desde 2014.

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Esses números retratam os projetos apoiados pela FBN, não a totalidade das traduções brasileiras no exterior. Os dados divulgados são organizados pelo ano de concessão da bolsa, que corresponde ao ano do empenho orçamentário, e que pode não coincidir com o ano de publicação da tradução.

O programa também contempla edições em português em outros países: dos 133 registros concedidos em 2025, 117 indicavam obras apoiadas a projetos não lusófonos, com um total de traduções para 26 idiomas.

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Verônica Lessa, coordenadora geral de Cooperação e Difusão da Fundação Biblioteca Nacional, atribui a evolução dos números ao apoio governamental, às parcerias institucionais e ao trabalho contínuo de revisão do programa. “Anualmente, buscamos olhar para as demandas do mercado editorial, para as possibilidades orçamentárias e, principalmente, para como podemos valorizar cada vez mais a literatura brasileira e ampliar sua circulação internacional.”

Para além dos apoios e bolsas, projetos favorecem visibilidade e parcerias

Para Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), o principal legado da homenagem foi a organização de uma atuação permanente no exterior. Ela cita a preparação das editoras, com capacitações, ações de promoção e um catálogo de direitos com obras de 98 casas editoriais naquele período. “Mais importante do que a exposição obtida durante a feira foi a construção de uma base para o desenvolvimento de relações comerciais de longo prazo”, afirma.

Esse trabalho é uma das frentes do Brazilian Publishers, projeto da CBL e da ApexBrasil de incentivo à internacionalização do setor editorial. A iniciativa, criada em 2008, oferece consultorias, organiza a participação em feiras e promove encontros entre editoras brasileiras e compradores estrangeiros. São ações que ajudam a apresentar catálogos e negociar a autorização para traduzir e publicar os livros em outros mercados.

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Os dados do Brazilian Publishers mostram uma expansão dos negócios associados à participação brasileira em Frankfurt. O volume passou de US$ 330 mil em 2014 para US$ 890 mil em 2019. Depois da interrupção provocada pela pandemia, chegou a US$ 928 mil em 2022, US$ 5,5 milhões em 2023 e US$ 8,1 milhões em 2025, segundo a CBL. O indicador reúne negócios fechados e expectativas para os 12 meses seguintes, envolvendo tanto direitos quanto livros físicos.

“Hoje, o principal desafio não é despertar interesse pelos autores brasileiros, mas transformar uma primeira aquisição em uma relação editorial e comercial de longo prazo”, afirma Matos.

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O crescimento dos negócios, no entanto, não equivale a uma contagem de traduções. Ele mostra outra dimensão da presença internacional das editoras, que se soma aos apoios públicos e ao trabalho dos agentes.

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A agente literária brasileira Ana Ban, diretora de direitos globais da agência americana BookEnds, relativiza o alcance de uma homenagem. “O fato de ser o país convidado em Frankfurt é um incentivo passageiro”, diz. Na sua experiência, a exposição tende a aprofundar o interesse de quem já acompanha a produção daquele país, sem necessariamente provocar uma descoberta entre os demais profissionais.

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Para Ban, a presença de autores brasileiros no exterior se constrói com um trabalho que vai além da exposição nas feiras. Ela destaca a atuação de agentes e tradutores junto às editoras e cita a alemã Nicole Witt e a francesa Laurence Laluyaux na circulação internacional de autores contemporâneos como Paulo Scott e Michel Laub.

O que os editores estrangeiros procuram

Segundo a agente literária Anna Luiza Cardoso, a valorização dos escritores no próprio Brasil ajuda a despertar a atenção internacional. Ela vê uma mudança especialmente depois da pandemia e de fenômenos como Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, e Tudo é Rio, de Carla Madeira. Vendas, prêmios e repercussão no mercado de origem tornam-se argumentos para apresentar uma obra a um editor estrangeiro.

“Essa valorização interna é fundamental para despertar o interesse externo, não tem como querermos internacionalizar uma literatura que não é valorizada em seu próprio país”, afirma Anna Luiza. Na sua avaliação, esse movimento ampliou a variedade de autores e obras que podem ser apresentados aos compradores estrangeiros.

Isso não significa que o sucesso doméstico garanta um contrato. Segundo a agente, a proporção de livros apresentados e efetivamente vendidos ao exterior ainda é baixa. De modo geral, o interesse se concentra em histórias com uma experiência brasileira reconhecível, mas capazes de estabelecer uma conexão com leitores de outras nacionalidades. “Histórias que sejam ao mesmo tempo brasileiras e universais”, resume.

Há também espaço para obras comerciais, como os thrillers de Raphael Montes, que Cardoso cita como exemplo de livros cujo apelo ultrapassa a origem nacional. “De modo geral, o editor estrangeiro tende a buscar, no Brasil e em outros países não hegemônicos, obras que sejam mais literárias, refinadas”, explica.

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Entre os mercados receptivos, a agente da agência LVB & Co. destaca Itália e França, além do interesse de editoras dos Países Baixos e da Polônia. No mercado de língua inglesa, considerado mais difícil, percebe uma aproximação maior de editoras independentes britânicas.

Os apoios da FBN, porém, mostram que os destinos também vão além desses mercados. Entre 2023 e 2025, a Argentina liderou os apoios para tradução, com 64, seguida de Itália, com 24, e França, com 22. O espanhol foi o idioma mais frequente, com 101 bolsas. Em 2013, ele também liderava, com 58, embora a Alemanha fosse o país com mais projetos contemplados, 35.

Clássicos e contemporâneos dividem o interesse estrangeiro

Lá em 2013, ano da homenagem do Brasil em Frankfurt, Rubem Fonseca e Jorge Amado estavam entre os autores com mais apoios concedidos, com dez e nove registros na FBN, respectivamente. Entre os contemporâneos, Diário da Queda, de Michel Laub, recebeu cinco apoios - para traduções em holandês, italiano, francês, inglês e hebraico. Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, teve quatro - para holandês, inglês, espanhol e alemão.

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O escritor brasileiro Itamar Vieira Junior na primeira edição do São Paulo Innovation Week, em 2026; atualmente, ele é um dos autores brasileiros mais contemplados em projetos de tradução para o exterior Foto: Felipe Iruatã/Estadão

Ainda segundo dados da Fundação, Machado de Assis e Itamar Vieira Junior aparecem lado a lado entre os autores mais contemplados recentemente. Nos registros de 2023 a 2025, excluídos os apoios para publicações em português, Machado soma 18 e Itamar, 16. Clarice Lispector e Mário de Andrade aparecem com nove cada um.

Nesse período, Torto Arado recebeu nove apoios e Salvar o Fogo, também de Itamar, teve seis. A lista inclui ainda obras como O que é Meu, de José Henrique Bortoluci, e Também Guardamos Pedras Aqui, de Luiza Romão. São registros de incentivo às edições, que não necessariamente foram lançadas no ano em que o recurso foi empenhado.

No catálogo representado pela LVB & Co., Cardoso destaca A Maldição das Flores, de Angélica Lopes, e Baviera Tropical, de Betina Anton. Segundo ela, os livros alcançaram, respectivamente, 11 e 15 países, entre vendas de direitos e publicações.

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Outros percursos são construídos gradualmente. Nihonjin, lançado em 2011 por Oscar Nakasato, foi publicado no México, no Chile e no Japão e teve direitos vendidos recentemente para França e Egito. Já Triste Não é ao Certo a Palavra, de Gabriel Abreu, chegou à Itália pela editora Sur e também foi vendido para a Espanha, relata a agente.

Quando a bolsa de tradução decide a publicação

Depois que uma editora se interessa por um livro, o custo de traduzi-lo pode definir se o projeto seguirá adiante. É nesse ponto que os programas de apoio se tornam especialmente importantes para casas menores.

Na prática, as editoras estrangeiras interessadas em traduzir e publicar livros brasileiros apresentam seus projetos à Fundação Biblioteca Nacional, que avalia as propostas conforme as regras de cada edital. “A cada edição, as propostas são avaliadas segundo os critérios previstos no edital, e os projetos selecionados recebem uma bolsa para viabilizar a tradução e a publicação da obra no país de destino”, explica Lessa.

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O edital de 2026 prevê apoio financeiro de US$ 1.000 até US$ 6.000 para projetos inéditos ou de nova tradução e apoio de até US$ 3.000 para os projetos de reedição.

“Muitas vezes, inclusive, fechamos contratos de opção de publicação condicionados à obtenção da bolsa, e executados apenas se estas forem obtidas”, explica Cardoso. Para grandes editoras, avalia, o auxílio é bem-vindo, mas tende a ter um peso menor na decisão.

Ban faz uma observação semelhante a partir da experiência nos Estados Unidos. Embora não tenha trabalhado com o processo da Biblioteca Nacional, foi responsável por solicitar bolsas alemãs quando atuava na The Experiment, uma pequena editora de não ficção de Nova York. Segundo ela, os recursos foram fundamentais para concretizar projetos.

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O financiamento ajuda a viabilizar a edição, mas o percurso continua depois da tradução. É preciso divulgar o autor, fazer o livro circular e encontrar seu público. “A venda de um direito representa apenas o início de um processo que envolve tradução, publicação, divulgação, circulação da obra e acompanhamento de seu desempenho no novo mercado”, afirma Sevani Matos.

É também nesse ponto que Cardoso localiza um dos principais desafios para a literatura brasileira. “De nada adianta ser vendido para fora e não ser lido lá fora.”

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