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Da 'carga de hipocrisia' ao 'vou votar a favor': entenda como e por que Flávio mudou discurso sobre o fim da escala 6x1
Da 'carga de hipocrisia' ao 'vou votar a favor': entenda como e por que Flávio mudou discurso sobre o fim da escala 6x1 · Imagem: Source: oglobo.globo.com

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A 12 dias da votação, o tema motivou um embate entre os dois adversários no segundo turno da corrida presidencial

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Flávio Bolsonaro faz campanha em evento do centenário da Assembleia de Deus — Foto: Charles Vieira/ Divulgação

Após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar — o primeiro encontro durante a campanha eleitoral —, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, mudou de posição e anunciou ontem que votará hoje a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1. A declaração foi dada na esteira de sucessivas críticas do senador à iniciativa apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu adversário no segundo turno.

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A 12 dias da votação, o tema motivou um embate entre os dois campos políticos. Segundo aliados, Flávio foi aconselhado pelo pai a evitar “desgastes desnecessários” antes do segundo turno. Já Lula viu o recuo como uma oportunidade de recuperar o “fôlego”.

Para ser promulgada, a PEC, que já tramitou na Câmara, precisa ser aprovada, sem alterações, em dois turnos pelo Senado. A votação em primeiro turno está prevista para esta tarde, com possibilidade de finalizar a análise do segundo logo em seguida, o que reforçaria uma bandeira da campanha petista.

“Vou votar a favor”

Apesar de anunciar o apoio, Flávio voltou a defender uma alternativa que permita aos trabalhadores negociar jornadas flexíveis. Segundo aliados, é possível que o parlamentar vote de forma remota o texto, já que há agenda de campanha em Porto Alegre.

— A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1. Então, eu vou votar a favor. Só que a gente defende algo ainda melhor. Eu queria que tivesse liberdade para o trabalhador montar sua jornada de trabalho. Como é que fica a pessoa que trabalha de home office? Isso não está definido na PEC — disse Flávio, antes de completar o raciocínio: — Mas acho que é um processo de evolução. A gente tem que buscar fazer com que o trabalhador tenha direito a uma folga maior, sim.

Depois da reviravolta na opinião do candidato do PL, Lula disse que o adversário resolveu votar a favor da proposta após a mobilização da sociedade.

Além de alterar a escala para trabalhadores formais, o texto reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais.

— Parece que, depois da pressão da sociedade, o PL resolveu votar o fim da escala 6x1. De vez em quando fico pensando... Se todo mal que eu causar a este país for fazer a direita avançar e atender aos interesses do povo brasileiro, vou continuar a fazer isso — afirmou Lula.

A fala de Lula ocorreu após mais uma cerimônia de lançamento de um pacote de bondades às vésperas do pleito. O petista anunciou o perdão de dívidas a MEIs, empresas de microempreendedores (Leia mais na página 15). Também apresentou a ideia do Pix Mei, uma transferência de R$ 5 mil, a partir de 2027, para os donos dos pequenos negócios.

Mais cedo, Flávio atacou justamente o endividamento das empresas e das famílias e afirmou que a redução da jornada exigirá novas contratações, o que poderia elevar os custos dos empregadores.

Quando tratou da redução da escala, reforçou a crítica de que caberia ao governo compensar financeiramente as empresas para evitar prejuízos à geração de empregos e o avanço da informalidade.

— Os empresários estão sufocados, estão quebrados. Então, o governo é que vai ter que bancar essa compensação, porque, obviamente, quando você reduz a jornada de trabalho, será necessária a contratação de mais pessoas. Tem o risco de muita gente ir para a informalidade. Então, isso tudo a gente está pesando. Mas, de novo, o meu voto vai ser conforme a vontade da maioria do povo trabalhador brasileiro — disse.

A campanha de Lula acredita que a votação pode dar um impulso para a mobilização de aliados nas redes e nas ruas. Indagado ontem se Lula poderia ir ao Senado para acompanhar a votação, o senador Camilo Santana (PT-CE), que faz parte da coordenação da campanha, não descartou a hipótese.

Aliados de Lula dizem que a campanha deverá reforçar esse recuo do adversário político para desgastá-lo.

A longo do dia de ontem, governistas passaram a explorar o raciocínio de que a campanha de virada de votos de eleitores do candidato do PT teria alcançado até mesmo Flávio Bolsonaro.

Um integrante da coordenação da candidatura diz que explorar esse recuo faz parte de estratégia que busca desconstruir a figura do senador.

A ideia é que ele seja apresentado como um político que atua contra os direitos dos trabalhadores e que, caso eleito, poderá também acabar com as conquistas já alcançadas, a exemplo dos programas sociais.

Ontem, Lula também lançou a ampliação do Pé-de-Meia para universitários, com bolsa de R$ 700 a estudantes, mais uma medida comemorada por aliados do PT às vésperas do pleito.

Nos últimos dias, Flávio vinha classificando como oportunista a tentativa de votar a PEC às vésperas da eleição e defendendo um modelo alternativo, baseado na flexibilização da jornada e na remuneração proporcional às horas trabalhadas.

Até então, evitava assumir um compromisso público com a aprovação. O candidato chegou a dizer que a proposta do governo Lula era “oportunista”.

— Lula, em quatro anos de governo, não faz. Agora, no meio do segundo turno, ele vem de uma forma oportunista querer fazer um movimento, achando que isso vai dar voto para ele — afirmou na semana passada.

A pauta, porém, passou a ser encampada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), após uma reaproximação com o governo Lula.

Com a onda de direita verificada no primeiro turno, Alcolumbre passa por dificuldades para articular sua recondução em fevereiro. O PL quer uma alternativa mais próxima do seu campo político após formar uma bancada de 28 parlamentares na Casa.

Ontem, o presidente do Senado afirmou que já há assinaturas suficientes para o requerimento que viabiliza a votação em dois turnos no mesmo dia. O instrumento, no jargão legislativo chamado de “quebra de interstício”, será apresentado pela líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), segundo a própria anunciou.

A PEC foi aprovada pela Câmara no final de maio e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado no início de setembro. Na semana passada, foram realizadas três sessões de discussão sobre as novas regras.

O texto que deve ser apreciado hoje, porém, pode não ser a alteração definitiva na legislação nos próximos meses.

Articulação para 2027

Como informou a colunista do GLOBO Bela Megale, senadores do PL já traçaram uma estratégia para que o projeto de jornada flexível apresentado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN) seja sobreposto à PEC, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente em 2026.

Parlamentares da sigla têm procurado interlocutores do mercado financeiro para transmitir o recado de que, mesmo com Flávio voltando atrás e declarando voto a favor da PEC, uma saída alternativa será construída.

O plano é que, com o apoio da maioria no Senado a partir de 2027, o PL e o eventual presidente trabalhem para aprovar o projeto de Marinho, que oferece uma jornada de trabalho baseada em horas efetivamente trabalhadas, sem fixar um teto inferior a 40 horas semanais nem impor o modelo obrigatório de cinco dias de trabalho por dois de folga.

O que o candidato do PL à Presidência já falou sobre a PEC que reduz a jornada de trabalho

- 19 de maio, uma semana antes da aprovação da PEC pela Câmara:

“Todo mundo é a favor que se trabalhe menos e se ganhe mais. Só que, infelizmente, não é a realidade estar nesse projeto de lei apresentado pelo governo em ano eleitoral, com grande carga de hipocrisia e interesse nas eleições”

- 29 de agosto, durante agenda em São Paulo, ao sugerir uma proposta alternativa à PEC 6x1:

“Nós vamos fazer muito melhor para os trabalhadores brasileiros. Nós vamos trabalhar pela liberdade, para que o trabalhador brasileiro possa escolher a sua própria carga de horário, como é que vai trabalhar”

- 6 de outubro, ao criticar Lula, dois dias após o primeiro turno:

“Lula, em quatro anos, não faz. Agora, no meio do segundo turno, vem de forma oportunista querer fazer um movimento, achando que isso vai dar voto. Tenho uma proposta melhor, dar liberdade para o trabalhador escolher a sua própria carga horária”

- 7 de outubro, ao questionar as prioridades do governo federal

“Ele (Lula) está pensando no poder, não está pensando no trabalhador. Se ele estivesse pensando no trabalhador, já tinha reduzido a carga tributária sobre a folha de pagamento, para o trabalhador ficar com seu dinheiro”

- 13 de outubro, véspera da votação da PEC (1º turno), após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro

“Vou votar a favor. A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1. Então, eu vou votar a favor do fim da 6x1. Só que a gente defende algo ainda melhor”

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