Mirelle Pinheiro

A declaração ocorre em meio a uma das maiores crises recentes envolvendo a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF)

Mirelle Pinheiro
23/09/2026 14:21, atualizado 23/09/2026 14:22
Vinícius Schmidt/Metrópoles
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Passos Rodrigues, afirmou nesta quarta-feira (23/9) que a corporação precisa manter uma atuação técnica e sem viés político para se defender de ataques, “não importa de onde” eles venham.
A declaração ocorre em meio a uma das maiores crises recentes envolvendo a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF), que chegou a provocar o afastamento de Andrei do comando da corporação neste mês.
Andrei fez as declarações durante a posse do novo superintendente regional da PF no Tocantins, Fernando Paganelli Rodrigues, em Palmas.
No discurso, o diretor-geral defendeu a autonomia e a independência da instituição e afirmou que o país atravessa um período de “turbulência” em razão das eleições.
“Hoje temos uma Polícia Federal que atua com autonomia, guiada pela Constituição Federal e pelas leis, pela responsabilidade institucional e pelo compromisso com a justiça e com a sociedade brasileira”, afirmou.
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Na sequência, Andrei fez a declaração sobre os ataques à instituição.
“É a atuação técnica, imparcial e livre de qualquer viés político que nos permite defender nossa instituição de qualquer ataque, não importa de onde venha.”
O diretor-geral não citou nomes nem relacionou a declaração diretamente aos episódios recentes envolvendo o Supremo. A fala, no entanto, ocorre duas semanas depois de Andrei ter sido afastado do comando da PF por decisão do ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master no STF.
Crise entre PF e STF
Mendonça determinou o afastamento de Andrei em 8 de setembro. O diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada, também foi retirado temporariamente do cargo.
O ministro afirmou ter sido alvo de “monitoramento sistemático” pela inteligência da Polícia Federal e citou a produção de ao menos seis relatórios que teriam chegado à direção da corporação.
A decisão ocorreu em meio a uma disputa envolvendo as investigações sobre o Banco Master. Mendonça havia divulgado material da Operação Compliance Zero com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e que, segundo os investigadores, teriam sido enviadas ao ministro Alexandre de Moraes. Moraes negou ter mantido contato com Vorcaro.
Depois da divulgação, Moraes tornou público um documento atribuído à inteligência da PF que levantava suspeitas sobre a condução de investigações por Mendonça. O documento não tinha assinatura nem cabeçalho da Polícia Federal e registrava que as informações não tinham caráter probatório. Mendonça sustentou que havia sido monitorado ilegalmente.
Ao afastar Andrei, Mendonça afirmou que o caso tinha “superlativa gravidade”. A Segunda Turma chegou a formar maioria para manter a decisão, mas o julgamento foi interrompido por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.
No dia seguinte, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei e de Almada. Dino apontou “atropelos processuais” e sustentou que Mendonça não teria competência para afastar o diretor-geral naquele processo, além de considerar que a substituição abrupta da direção da PF poderia prejudicar investigações em andamento.
A crise extrapolou a própria Polícia Federal. Na semana passada, ministros protagonizaram duros embates durante uma sessão do STF que discutia desdobramentos relacionados ao caso Master. Moraes acusou Mendonça de parcialidade, o que foi negado pelo ministro. Gilmar Mendes também criticou Mendonça e questionou a decisão que havia afastado Andrei.
“Turbulência”
Sem mencionar diretamente essa sequência de episódios, Andrei falou nesta quarta sobre os efeitos das disputas políticas sobre a Polícia Federal.
“O Brasil vive um período de turbulência em razão do período eleitoral e a Polícia Federal não está imune aos efeitos das disputas políticas”, afirmou.
Para o diretor-geral, o compromisso com a lei e com o interesse público é o que dá segurança à instituição nesse cenário.
“Saber que trabalhamos estritamente dentro da lei e comprometidos exclusivamente com o interesse público nos mantém confiantes de que a verdade dos fatos, que buscamos incansavelmente em nossas investigações, prevalecerá.”
Andrei também defendeu a independência das instituições.
“Instituições fortes, independentes e respeitadas não servem a si mesmas, servem à sociedade brasileira. E cabe a todos nós exercer nossas funções com firmeza, no interesse da inegociável missão de promover a justiça e assegurar o Estado de Direito.”
Crime organizado
Durante a posse no Tocantins, Andrei também tratou do enfrentamento ao crime organizado e afirmou que o problema deixou de ser apenas uma preocupação brasileira.
“É preciso destacar que a segurança pública e, por consequência, o enfrentamento ao crime organizado são hoje as grandes preocupações, não só da sociedade brasileira, mas imperativos globais, desafio dos Estados, da sociedade civil e do mundo corporativo.”
“Sem segurança não há desenvolvimento, não há investimento, não há sossego para as pessoas viverem”, completou.
Andrei afirmou ainda que a PF tem apresentado resultados expressivos desde 2023, mas disse que evitaria apresentar números por causa do período eleitoral.
“Como estamos no período de defeso eleitoral, não citarei os números, mas a Polícia Federal tem apresentado resultados grandiosos, dos quais cada um de vocês pode e deve se orgulhar.”
Fernando Paganelli assume a Superintendência Regional da PF no Tocantins no lugar de Reginaldo Donizetti Gallan Batista. Ao encerrar o discurso, Andrei reiterou a confiança no novo superintendente e afirmou que a corporação seguirá pautada pela “integridade, inovação, imparcialidade, ética e eficiência”.


